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ENTREVISTA

PARTICIPANTES:

Arq. Maryana Pinto (Entrevistada);

Catharina Barros (Co entrevistadora).

    Stephany Ruiz: Boa tarde Mary! Essa é a Catharina minha colega de sala.

    Maryana Pinto: Olá Catharina, tudo bom?

    Catharina Barros: Oi! (acena).

   Stephany Ruiz:  Explicando um pouco melhor, temos que realizar uma entrevista, porque teremos que montar um site no final do nosso semestre, para colocar nosso portfólio e a entrevista será postada transcrita nele.

    Maryana Pinto: Ok!

    Stephany Ruiz:  Então para a gente começar, gostaríamos que você falasse um pouco sobre a sua formação e especializações.

    Maryana Pinto: Primeiro vou dar boa noite pra turma de vocês, a turma do sexto período. Meu nome é Maryana eu sou arquiteta, urbanista e paisagista. Milito muito na área do paisagismo, gostaria inclusive de ver nascer outros paisagistas. Sou formada pela Unesp no campus de Bauru, quando eu fiz Unesp não tinha ainda o campus de Ilha Solteira, então só tinha o curso de arquitetura na Unesp, eu sou formada no ano 2000, então já tenho 24 anos de estrada, sou Mestre em Engenharia de Meio Ambiente, tenho duas pós-graduações antes do meu mestrado, uma em Gerenciamento de Obras e a outra em Hotelaria, que é a área que eu trabalho com mais afinco. Meu escritório é um escritório 100% dedicado hoje a destinos turísticos, então eu trabalho desde o planejamento turístico regional até projetos de arquitetura para empreendimentos hoteleiros, passando por parques aquáticos e de aventura, resorts, resorts de Multi-Propriedade e todas as outras construções afins, que são requeridas nesse universo dos destinos turísticos.Também tenho mais uma atuação profissional que é importante, que talvez seja a mais importante. Eu sou professora! Sou professora da universidade estadual de Goiás, sou professora já há 20 anos… Em 24 de formada, estou professora na universidade estadual de Goiás há 9 anos, antes disso passei pela federal de Goiás, pela PUC de Goiás e pela UniEvangélica. Hoje só estou na universidade estadual de Goiás, sou concursada lá desde 2015.Então minha atuação profissional é assim, metade do tempo eu trabalho como professora, mas eu não só dou aula, porque é uma coisa que os alunos sempre perguntam né?! Como se professor só dessa aula. Como se já não fosse bastante complicado dar aula, eu também tenho um escritório que está dedicado a esses projetos de destinos turísticos, eu trabalho com gente feliz, com gente se divertindo, gente de férias!!

     Stephany Ruiz: Muito obrigada, pela introdução. E a Catharina vai começar fazendo a primeira pergunta.

    Catharina Barros: Eu só queria fazer um parêntese, eu gosto muito da área de docente, é uma das áreas que eu quero seguir, fiquei muito feliz quando você falou que era docente!! (animada).

   Maryana Pinto: Que legal, eu também gosto muito da docência, é árduo o caminho, imagino que tenha professores aí nessa sala me escutando agora e deve estar fazendo assim com a cabeça (movimento de afirmação com a cabeça).

Catharina Barros: Agora eu vou começar com as perguntas. A primeira é “O que mais te cativou dentro da área de paisagismo e meio ambiente que te levou a escolher uma especialização dentro desse tema?”

     Maryana Pinto: Eu vou fazer uma repescagem aqui, desde que eu me formei eu fui trabalhar com um escritório que tinha uma interface com produtos hoteleiros, tinha uma com o Rio Quente Resorts, que hoje é o grupo AVIVA, e naquele momento o escritório não era só dedicado a isso, e eu acabei me tornando sócia desse escritório na época, fui sócia por 7 anos e nosso principal cliente, não era quando eu entrei, mas depois acabou se tornando o Grupo Rio Quente, o que depois veio a se tornar o grupo AVIVA. Então quando eu comecei a trabalhar, como muitos de vocês, a gente sai da faculdade assim meio perdidos, não é? Aí eu fiz uma faculdade fora, hoje moro em Goiânia, mas meu campo de atuação está no Brasil inteiro, então Goiânia é só meu CEP, mas dou aula em Anápolis, então quer dizer que essa história do regional e do urbano é o tempo inteiro parte da minha vida. Quando saí da faculdade então fui fazer uma pós dentro da Engenharia, porque a sensação que eu tinha embora o meu curso tenha sido um curso muito completo, numa época que a formação envolvia muitas horas de sala de aula, antes das reformulações, eu fui para dentro da engenharia, porque eu queria fazer uma pós na prática, então fiz uma em gestão de obras, que foi muito importante para mim, porque eu fui conhecer o outro lado da história, porque a gente faz o projeto e fica torcendo para ter um bom engenheiro para executar o projeto, então eu fui entender o outro lado da situação. Foi uma especialização de um ano e meio que foi muito interessante, porque me abriu a porta da faculdade de engenharia em Goiás, foi onde eu conheci quem depois se tornou meu orientador no mestrado e foi onde eu comecei a entender um pouco do que é o dia a dia da obra, e isso é uma das grandes questões que faz com que eu tenha algum sucesso na área, exatamente por entender o outro lado da moeda, ter essa vivência dentro da obra, um pouco no planejamento da obra entendendo todo o caminho crítico da construção, entendendo todas essas variáveis. Já estava com a minha gestão de obras feita, estava tudo indo bem, e eu fui perceber que dentro da área que eu trabalhava e que eu comecei a trabalhar cada vez com mais afinco que é a área de hotelaria, não tinha literatura no Brasil a respeito, até hoje ainda tem muito pouco, o que você tinha, isso nós estamos falando nos anos 2000, vocês não lembram disso obviamente (risos), mas só fazendo uma recapitulação, o Brasil ficou fechado por um mundo internacional por muitos anos, com a abertura da economia começaram a vir as grandes redes internacionais de hotelaria para o Brasil e elas trouxeram uma profissionalização, mas elas trouxeram baseadas muito fortemente na hotelaria de negócios e não na hotelaria de lazer, e o próprio brasileiro não viajava como viaja hoje, a informação desse viajante. Então eu comecei a perceber que primeiro, não tinha literatura sobre o assunto, segundo, não tinha arquiteto especializado no assunto, terceiro, não tinha pós-graduação sobre o assunto, então é mais ou menos que falar “quando eu cheguei aqui só tinha mato” (risos), claro que não só se tinha mato, tinha muita gente já fazendo arquitetura hoteleira, mas fazendo de uma forma meio empírica, aí eu cheguei à conclusão de que a melhor forma de aprender a fazer hotel era se eu aprendesse também o que o hoteleiro sofria, então eu fiz uma pós-graduação dentro do hotel escola do Senac, que era para arquitetura, era para gestores hoteleiros, era também uma pós-graduação bastante longa de um ano e meio, eu passei em todas as áreas, e eu fui entender o que a governanta passava para arrumar um quarto, eu fui entender o que o gestor da área de alimentos e bebidas passava para poder trazer todo o alimento que chega em natura até ele ser entregue e preparado. Foi uma formação que me ajudou muito a entender que se a gente quiser fazendo um projeto a gente piora muito a vida das pessoas a gente consegue, então a gente faz arquitetura para melhorar a vida das pessoas, mas se a gente for projetar em cima do que a gente imagina que seja, em cima das nossas questões, da nossa realidade, a gente precisa de muito pouco, então a gente precisa entender que é preciso calçar os sapatos dos que estão do outro lado. Depois quando já estava interessada na área da docência fui fazer a pós-graduação, e no momento em que eu escolho a Engenharia de Meio Ambiente, porque eu já trabalhava com conforto ambiental enquanto eu trabalhava com a hotelaria, eu comecei a perceber que quando fazemos projeto de hotelaria a gente negligencia muito uma camada dos usuários que é quem tem mais interface com os edifícios, o usuário para a gente do ponto de vista do edifício é toda e qualquer pessoa que o habite, então o usuário do hotel não é só o hóspede, usuário do hotel é também a camareira também, o garçom, o recreador e para essas pessoas as áreas de serviço são geralmente que têm índice de conforto ambiental muito baixo, seja por propagação de ruído, seja por ser deixado sempre na pior fachada ou a mais insolada, a fachada vai ter menos oportunidades de abertura, muitas vezes as áreas técnicas também não podem ser ventiladas naturalmente, então eu fui entender como eu poderia atuar nisso, com isso desenvolvi a minha tese com essa relação. Nessa experiência fui atuar em Goiás, que é onde eu atuava com mais frequência naquela época e que é um estado que uma amplitude térmica muito grande, então você tem noites muito frias e dias muito quentes, a gente tem uma amplitude térmica às vezes variando até de 26° durante um dia, que é uma coisa muito grande para um edifício, estamos acostumados a projetar pelas médias e não pelas extremidades. Então minha tese tentou colaborar um pouco nesse sentido de entender a realidade, foi um estudo de caso em relação à percepção das pessoas com os seus ambientes hoteleiros, tanto os hóspedes quanto os funcionários e foi interessante de entender como a gente constrói edifícios e destinos e nem sempre construímos lugares para pessoas serem felizes trabalhando, então fica aqui o recado para nós mesmos.

    Stephany Ruiz: Essa parte de conforto ambiental a gente está tendo agora também, é muito importante, tanto para construções maiores quanto para as menores.

    Maryana Pinto: E agora com a norma de desempenho mais ainda, quando eu comecei não tinha norma de desempenho, agora ela passa a ser um requisito obrigatório e cada vez mais isso vai ser não mais um diferencial e sim um requisito obrigatório. (risos).

    Stephany Ruiz: Baseando-se na sua experiência, como foi o processo para conseguir seu primeiro estágio?

    Maryana Pinto: Meu primeiro estágio foi interessante, porque eu comentei com vocês que eu fiz faculdade em Bauru, mas a minha família na época morava em Goiânia, então me deu aquele desespero de: nossa estou fazendo faculdade longe, de onde eu vou atuar profissionalmente. Foi aquela história volto não volto? Será que vou para São Paulo? Que faço? E claro a família pressionando para voltar e… um professor de hidráulica que nem era da arquitetura, era da engenharia, algumas das matérias que a gente tinha é que tinham interface com a engenharia, a gente tinha que cumprir os créditos dentro da engenharia, então uma formação bastante complicada, porque a gente fazia hidráulica junto com hidráulicos dos engenheiros civis, fazia cálculo junto com eles, enfim era o momento mais triste da nossa vida vocês chegaram um momento mais feliz (risos).E esse professor tinha chegado de um Congresso na Costa Rica e tinha conhecido duas arquitetas de Goiás, que trabalhavam com bambu como material de construção, uma coisa bem específica, e ele comentou: “Elas são muito bacanas, você não quer conhecê-las?”, e eu fui conhecer elas num período de férias acabei trabalhando com elas nas férias e depois no meu último ano de faculdade eu decidi continuar fazendo estágio lá e faculdade em Bauru, então eu passei a ter uma vida de turista pela primeira vez, que é uma coisa que eu sigo fazendo até hoje, eu viajo é semanalmente para poder atender meus clientes que estão fora de Goiânia, principalmente os clientes de Olímpia, mas também os outros que estão espalhados no Brasil e isso começou na faculdade quando eu decidi que se eu queria realmente me estabelecer em uma cidade eu precisava conhecer a realidade dela, e fui fazer estágio lá, mesmo estando na faculdade. Então foi assim que tudo começou. A dica é: sejam amigos dos seus professores, eles podem te indicar um estágio. (sorri).

    Catharina Barros: Seguindo essa mesma linha de raciocínio, teria alguma dica de melhoria no currículo para os alunos do último ano para conseguir seu primeiro emprego/estágio?

     Maryana Pinto: Eu vou falar como professora e como orientadora de estágio agora e contar para vocês, que primeira coisa no meu escritório hoje, meu escritório chama estúdio Studio M+, e o “mais” é exatamente, porque a minha ideia é sempre trabalhar em colaboração com meus ex-alunos, então esse é o meu primeiro ponto de corte, só trabalha comigo quem foi meu aluno. O que na verdade é uma forma de eu mantê-los por perto porque eu fico com saudade! (risos).A primeira coisa, óbvio né como eu dou aula eu tenho essa oportunidade de assistir o desenvolvimento dos alunos desde o começo do curso, e eu dou aula logo no começo do curso e depois eu faço a orientação de TFG, então eu tenho uma noção dos alunos ao longo do curso. E claro toda vez que eu abro vaga de estágio, o primeiro lugar que isso acontece dentro de sala de aula e depois eu coloco a na rede social a do próprio curso, e é assim que a gente que a gente pesca os nossos estagiários, mas contando um pouco agora do que eu vejo dos meus alunos, a primeira coisa é durante a faculdade faça um portfólio que te apresente como como ser individual, então saber que você entende um programa interessante, saber que você é consegue dominar uma ferramenta importante, mas é mais importante entender a sua linha de raciocínio projetual, então o trabalho que você executou na faculdade às vezes a entrega que você fez aquele trabalho e não chegou ao nível que você queria, mas você consegue revisitar ele nas suas férias e colocar ele no teu portfólio por exemplo, isso é bastante importante. Outra coisa importante que eu falo sempre meus alunos, é o redesenho, isso é muito importante enquanto a gente não sabe projetar a gente pode aprender muito percorrendo o caminho que o outro arquiteto, então está no começo do curso os seus projetos ainda não estão legais, trabalha com redesenho, para poder deixar claro olha isso aqui é um redesenho de um projeto tal, mas olha como eu consigo chegar nesse nível de apresentação de projeto, como eu consigo fazer esse desenho técnico, como eu consigo assimilar o processo projetual desse arquiteto, e a partir do momento que você vai tendo projetos mais complexos ficando mais interessantes para colocar no teu portfólio isso também é interessante, aí gente uma linguagem gráfica interessante no portfólio, porque a linguagem gráfica ela te apresenta como pessoa, se você é uma pessoa é pragmática você vai ter uma linguagem de expressão de uma comunicação visual que também vai comunicar esse valor, se você é uma pessoa do detalhe você vai buscar uma comunicação que vai valorizar essa sua forma de se expressar, então é interessante pensar assim que o teu portfólio ele não só comunica o que você fez o que você sabe fazer mas também um pouco do que você é através de uma forma que a gente se expressa também inteiro, porque a gente se expressa por desenho, se a gente fosse bom de palavra já tinha ido fazer jornalismo não é isso? (risos) Como a gente é melhor desenhando, desenhe e faça uma programação visual incrível, demonstrem domínio sobre cor textura luz e sombra jogos de interesses, crie um portfólio bacana, não façam um portfólio no Canva. (risos).Coloquem a criatividade para funcionar, eu sei que é tentador pegar um portfólio pronto do Canva, mas ela vai falar muito sobre a pessoa que o criou e zero sobre você.

   Stephany Ruiz: De que modo você aplica seus conhecimentos sobre meio ambiente nos seus atuais projetos e como isso se torna um diferencial no mercado de trabalho?

    Maryana Pinto: Especificação de material é algo muito sério, e eu tenho visto, infelizmente, principalmente na área de interiores, que é uma área que eu faço muita coisa, e na qual eu acredito muito que estão se tornando cada vez mais reféns da indústria, sem necessariamente se comprometer com a performance do material. Tá usando, tá na moda, e não é isso que garante o desempenho daquele material ou a melhor solução arquitetônica, e foi isso quando eu fiz a obra em gerenciamento de obra, eu fiz um módulo específico de materiais, de resistência dos materiais, que eu já tinha visto na faculdade, mas fizermos um módulo específico na pós, porque a gente tinha que entender como esse material chega na obra, como ele é utilizado, etc. E depois no meu estágio de docência, porque a gente é obrigado a fazer estágio de docência, eu fui fazer esse estágio dentro do curso de engenharia da Federal, a disciplina que eu mestreava era a de materiais de construção para acabamento, e foi aí que eu fui mergulhar nessa questão dos vidros, dos materiais metálicos, dos materiais cerâmicos, dos materiais naturais todos. O que as pedras podem te oferecer, qual a formação de cada uma delas. Se você não tem como fazer uma pós-graduação, porque eu entendo que não é exatamente fácil, é claro que a minha formação é uma formação que parte de um lugar de privilégio, porque eu não tive que trabalhar durante a faculdade por exemplo, eu só fiz estágio, então eu entendo que nem todos conseguem a mesma formação, minha faculdade era tempo integral, mas hoje a gente tem tanto acesso à informação, a informação está tão democratizada, e a gente pode buscar sempre entender um pouco mais, mergulhar um pouco mais. Minha primeira dica, se eu posso dar uma dica, é sejam curiosos e duvidem sempre, duvidem pra que vocês sempre busquem uma outra opinião, para que vocês construam a sua opinião a partir de muitas outras opiniões, o que parecer fácil demais duvide, sempre escutem, escutem o mestre de obra, o revendedor, busque o representante para falar sobre as especificações o que ele representa, tenha a oportunidade de fazer um curso, on-line. Tem muitas palestras on-line, fornecidas pelos próprios produtores, pelos fabricantes, escutem essas palestras e entendem nenhuma especificação é só aquilo que a gente está imaginando e que a gente está vendo, sempre tem uma série de coisas por trás e consultem sempre as normas técnicas que são aplicadas em cada um desses materiais. Então entendam todas as normas, busquem acesso às normas, a norma técnica brasileira é um negócio caro, mas que vale a pena investir, porque é uma questão de segurança pra gente, porque se você se respalda na norma e se respalda na técnica, você não vai ter problema no futuro. Lembrando que a nossa área a gente está sujeito ao código civil, então a gente tem a responsabilidade legal, se eu especifico um material que não está adequado naquele momento e uma pessoa se acidenta, eu vou responder legalmente pela especificação equivocada. Outra coisa também, não é só especificar, também não ser vítima dessas questões que a gente vê de arquitetos, principalmente recém-formados, encontram uma forma de fazer dinheiro, assinando anotações de responsabilidade técnica para pessoas que não são formadas. Então você tem uma pessoa que faz uma casa e a prefeitura vai lá e autua, porque essa casa não tem um projeto de arquitetura, aí a pessoa vai e faz o projeto às pressas e assina uma notação de responsabilidade técnica, mas não foi ela que fez, então como você se responsabiliza tecnicamente por uma coisa que você não fez, e pior ainda se responsabiliza pela obra, porque a gente tem como fazer notação de responsabilidade técnica de obra e como você vai se responsabilizar por uma coisa que você não viu construir, e eu não recomendo ninguém a fazer, embora seja um dinheiro fácil, isso acontece bastante. Então fica o recado.

    Stephany Ruiz: E tem gente que acaba nem atuando na área de formação e acaba só assinando projetos.

    Maryana Pinto: Tem muitos, a gente chama isso de "caneteiros", eles só assinam, tem muito arquiteto caneteiro, muito engenheiro caneteiro.

    Catharina Barros: Caramba! Achei que eram só arquitetos, mas pelo jeito engenheiros também.

  Maryana Pinto: Engenheiro tem muito mais do que arquiteto, porque dentro da engenharia você tem muitas áreas de atuação, como hidráulica, elétrica, são muitos.

    Catharina Barros: Entendi! E de acordo com os projetos que seu Studio desenvolve atualmente, como você acredita que suas especializações contribuem na evolução desses projetos?

    Maryana Pinto: Eu acho que, conhecimento nunca é demais, eu estou adiando meu doutorado, já deveria ter encarado o desafio, e acho que a primeira coisa como eu já tinha comentado, a vontade de conhecer, de saber. E arquiteto que não quer saber, não quer conhecer um prédio novo todo dia, não quer entender, não tem curiosidade pela nossa área, é porque falta aquele pedacinho que transforma a gente em arquiteto mesmo, porque é um bichinho, um vírus que você pega em arquitetura ou você está infectado ou não, então isso sem dúvida me ajuda muito, e hoje que eu faço cursos menores, e aí quando você vira professor, isso que é uma porcaria parece que você não pode mais aprender, e eu me enfio em um monte de cursos pequenos com outros professores, principalmente na área do paisagismo, que é uma área que eu me dedico bastante, e de repente eu estou lá no curso com um professor da UFU, e ele me pergunta: "Maryana o que você está fazendo aqui?", e eu falo eu só estou aqui para te ouvir, "Mas é a mesma coisa que você dá em sala de aula Maryana", e eu respondo: mas eu gosto de ouvir com outras palavras. Por exemplo o Professor Tabacow, que trabalhou muitos anos com Burle Marx, é um professor que eu já fiz uns quatro ou cinco cursos livres com ele, eu já sou freguesa, e ele fala pra mim "Maryana, mas esse curso você já fez", e eu falo: mas eu gosto de ouvir sua voz, amo ficar aqui. E cada vez ele fala uma coisa de outra forma. Uma coisa engraçada pra mim que dou aula, principalmente por ser a mesma disciplina sempre, eu vou falar uma coisa que vocês não sabem, mas antigamente quando a gente fazia ligação pelo orelhão a gente colocava uma ficha, e quando a ficha caia completava a ligação; então cai a ficha e você entende algumas coisas, às vezes dando aula sobre o mesmo assunto durante tantos anos, te dá um "insight, e você pensa nossa tai, e uma coisa puxa a outra na arquitetura é sempre assim. Tem um livro bacana do Bruno Zevi que chama "Das coisas nascem coisas", e eu acredito muito nisso, quanto mais a gente buscar referência, quanto mais a gente estudar, assuntos diversos, a nossa área se transforma o tempo inteiro. O meu escritório trabalha transversal por assunto e não por disciplina, muitos escritórios trabalham com disciplina, como o escritório só trabalha com arquitetura de interiores, só de iluminação, só de paisagismo; meu escritório trabalha transversal, trabalha por nicho de mercado, dentro dele, eu vou fazer desde o plano, porque quando você vai fazer projeto de parque você tem que entender o urbano; entrada e saída de grandes veículos, têm que entender a inserção daquele parque na cidade, o loteamento, que é algo que acontece bastante de interesse turístico, então onde você vai setorizar cada uma das áreas, então onde você vai setorizar o parque, os hotéis, o condomínio, o urbano como um todo; Então meu escritório planeja desde o urbano até a arquitetura de interiores, então imagina a felicidade, com cinco áreas para descobrir coisas novas todos os dias, eu acho que esse é que é a graça do arquiteto, ele as vezes não ganha muito dinheiro, mas vê coisa bonita o dia inteiro, então essa é uma coisa bacana nossa. Também tem coisa feia, se a gente não faz coisa direito, acaba ficando feio, o feio não mata de primeira, mata de desgosto depois, a gente faz uma coisa feia, mal ventilada, mal iluminada. A pessoa não morre de cara depois ela vai morrendo de desgosto ao longo do tempo, então tem que ficar atento.

    Stephany Ruiz: Uma coisa sobre a aula interessante que você falou, na aula mesmo que seja a mesma matéria, por exemplo eu tive que trancar o curso um semestre da minha faculdade, então eu tive que ter algumas matérias duas vezes, com os mesmos professores. Então você vê que de acordo com a turma, com as perguntas que surgem, a matéria toma um caminho totalmente diferente, que não era o esperado às vezes.

    Maryana Pinto: Fato! E isso é uma coisa legal de dar aula, porque você é desafiado o tempo inteiro, então as pessoas vêm perguntar "porque você ainda dá aula?", e eu respondo que é por isso, por conta dos alunos, porque eles me fazem ser melhor todos os dias. E porque eu não quero ficar velha, porque eu vejo vocês jovens e me dá vontade de sabe correr atrás (risos). Eu penso nossa já fui assim.

    Stephany Ruiz: Como você acha que incluindo o projeto de paisagismo nas produções de um projeto arquitetônico pode ajudar a melhorar os problemas do meio ambiente existentes?

    Maryana Pinto: Olha vou fazer uma provocação aqui. Dependendo do projeto de paisagismo que a gente faz, nós temos um gasto absurdo de água, para irrigar por metro quadrado de 5 litros de água por metro quadrado, essa conta é uma conta muito pesada, quando estamos falando de grandes extensões de gramados, plantados com uma grama que não é adaptada pro nosso meio ambiente. Então às vezes a gente pensa nossa biofilia, paisagismo, que coisa ótima para o meio ambiente, mas nem sempre é assim, em tempos que a gente tem por exemplo, agora que estamos a beira de uma seca, de um racionamento de água no Brasil, pelo menos aqui na porção centro-oeste, São Paulo, minas, goiás, mato grosso, mato grosso do sul, a gente tá experienciando 170 dias de seca, deu uma chuvinha aqui no interior de São Paulo, mas não contou, Goiás nem isso. Então é muito comum paisagismo é necessariamente amigo do meio ambiente, mas se trabalhamos com a espécie errada, estamos criando um problema a mais, e óbvio não é escovando o dente em casa que estamos gastando água com a torneira aberta, a gente sabe que o grande inimigo hoje do consumo de água é a forma de produção que alimento que foi investido durante todo esse tempo e que é equivocada e que leva a tudo isso. Mas a gente também tem uma parcela de culpa, quando construímos um edifício que não está ventilado de maneira correta e estamos obrigando a pessoa a ficar no ar-condicionado, estamos contribuindo para a piora da situação, quando fazemos um paisagismo equivocado que vai depender mais de águas, mais de poda, que vai ter todo um problema para se manter, porque ela é uma planta equivocada para aquele lugar, nós estamos piorando. Agora é claro que áreas verdes são sempre melhores do que áreas construídas, áreas impermeáveis são sempre piores do que áreas permeáveis, não tem nem do que a gente comentar, e dentro dessa ideia agora da paisagem, eu continuo puxando sardinha para minha área, eu acredito que assim como depois da década dos anos 80 a gente viu a importância dos urbanistas crescendo, com muitas cidades com muitos problemas, com o surgimento da cidade para as pessoas, como se a gente não soubesse disso desde o começo dos anos 50, acho que agora 2020 / 2030 é o tempo das paisagistas, porque estamos precisando de cidades mais resilientes, cidades que consigam aguentar a questão extrema do clima.

    Catharina Barros: Falando sobre paisagismo. Você tem algum tipo de estratégia projetual em relação a escolha de espécies de plantas para cada projeto?

    Maryana Pinto: A estratégia básica é entender a composição - clima, solo e local de implantação sem esse trio básico o risco de especificar errado é bastante grande. Outro ponto importante é nos certificar se estamos próximos de áreas de APP para não especificar espécies que tenham potencial invasor.

     Stephany Ruiz: Em relação ao ano de sua formação, você acredita que a demanda por esse tipo de projeto teve um aumento? Se sim, de uma forma positiva?

   Maryana Pinto: Sem dúvida não apenas no nicho de atuação do meu escritório (turismo) como também na área em que sou professora (arquitetura da paisagem). Hoje não apenas estamos viajando mais como também apreciando a vida em contato com a natureza!

    Catharina Barros: Considerando as grandes proporções de seus projetos, como foi para você, estabelecer uma relação interprofissional com profissionais especializados nas diversas áreas necessárias para a elaboração de projetos desse porte? Nesses casos, como é a mediação de conflitos em relação às opiniões divergentes?

   Maryana Pinto: Acredito muito na parceria com os diversos interlocutores que fazem parte do processo construtivo e mesmo tendo divergências em alguns momentos sempre é possível encontrar pontos em comum para construirmos soluções que privilegiem a boa técnica sem abrir mão dos preceitos que nos são caros como arquitetos.

     Stephany Ruiz: De acordo com quais critérios você estabeleceu diretrizes para uma boa elaboração de orçamento para seus projetos? 

     Maryana Pinto: Nossos orçamentos são elaborados a partir de uma estimativa de equipe / horas trabalhadas.

     Catharina Barros: Com base com tudo o que foi conversado até agora durante a entrevista, quais seriam os materiais que você mais utiliza e recomenda para a aplicação dessa sustentabilidade na arquitetura?

     Maryana Pinto: Sobre sustentabilidade no paisagismo é interessante pensarmos que nem sempre a adoção de áreas ajardinadas é sinônimo de ecologicamente correto. Óbvio que garantir a permeabilidade do solo é essencial, no entanto sabemos que um jardim cujas plantas não estejam perfeitamente adaptadas ao clima consome em média 5 litros de água por m2. Se a rega precisar ser constante o impacto é muito grande.

    Catharina Barros: Para finalizar gostaríamos de saber foi o projeto que você considera o mais importante da sua carreira e por quê?

    Maryana Pinto: O projeto mais importante é sempre o que a gente está fazendo agora!

    Catharina Barros: Muito obrigada pela atenção e ajuda!

Considerações finais

 

    A entrevista foi uma experiência muito enriquecedora, que me ajudou a ver como um Arquiteto pode trabalhar em diversas áreas e mesmo assim todas elas se interligarem em algum momento, o que gera um impacto positivo do resultado final de um projeto, faz com que ele fique mais complexo e compreensível para aqueles que vão segui-lo.

    Agradeço imensamente a Arq. Maryana por ter disponibilizado do seu tempo para que pudesse nos ouvir e responder nossas dúvidas com muito carinho e atenção, foi uma conversa muito gratificante e com muito conhecimento compartilhado!

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